Pai apresenta queixa contra professora que ensina canção com “viva o Benfica”

Engraçado como uma notícia destas  provoca logo uma reacção em cadeia de comentários clubísticos  e preconceituosos.

Li com cuidado os vários comentários destas notícias nos jornais online e em blogs, sempre a pensar que realmente teria sido uma atitude demasiado radical por parte do pai até que encontrei o seguinte comentário que referia na íntegra a queixa do pai:

Ocorrência no JI de Santo Isidoro – Agrupamento de Escolas António Bento Franco (Ericeira) Exmo. Senhor, Considerando que a Lei de Bases do Sistema Educativo estabelece um conjunto de princípios gerais, reconhecendo o direito à liberdade de aprender e ensinar, com tolerância para com as escolhas possíveis, não podendo o Estado atribuir-se o direito de programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas; Não posso deixar de reportar, enquanto encarregado de educação, uma ocorrência no JI de Santo Isidoro, pertencente ao Agrupamento de Escolas António Bento Franco – Ericeira, solicitando que essa Direção Regional de Educação apure a verdade dos factos e atue, com todos os meios ao seu alcance, no sentido de responsabilizar os intervenientes. Assim, desde o início do presente ano letivo, diária e repetidamente, as crianças do referido estabelecimento de educação, entoam a cantiga popular “atirei o pau ao gato”, adicionando, no final, um slogan clubístico que consiste em “batata frita, viva o Benfica.” Perante isto, e em termos práticos, a minha Educanda, que simpatiza com o Porto, sente-se inibida e acossada, rejeitando até ir à escola pois os colegas, no recreio, chegavam a empurra-la por não ser simpatizante do mesmo clube. Quando tentei explicar as razões pelas quais não se deveria fomentar este tipo de comportamentos num Jardim de Infância, a Sra. Educadora apelidou-me de “fanático” e convidou-me a tirar a minha Educanda daquilo a que chamou a “sua escola,” tendo argumentado que “a maioria é benfiquista”; “a música é assim” e “em todas as escolas em Mafra cantam a música desta forma.” A partir daquele momento, as crianças foram proibidas de cantar a referida cantiga, na sua totalidade, em vez de passarem a cantá-la devidamente. Mais, a Sra. Educadora referiu na sala de atividades que ‘não cantamos porque o pai da Nicole não deixa’Nestes termos, e face à gravidade da ocorrência em si e da forma como a Sra. Educadora e a Direção do Agrupamento de Escolas diligenciaram no sentido, não da sua resolução mas da agudização da mesma, reveladora de um sentimento de impunidade e apropriação de espaço público, solicito a V. Exa. que providencie as diligências necessárias ao apuramento de responsabilidades, a fim de que situações semelhantes não se repitam Sr. Diretor, concordará comigo que se deve promover o desenvolvimento do espírito democrático e pluralista, respeitador dos outros e das suas ideias, aberto ao diálogo e à livre troca de opiniões. O que se pretende quando se promove a intolerância, o desrespeito pelas instituições e pela livre opinião? Estas práticas são um incentivo ao bullying, algo que todos pretendemos abolir dos nossos estabelecimentos de ensino. Insatisfeito com tal argumentação, dirigi-me à sede do Agrupamento de Escolas para, em conjunto com a Direção, marcar uma reunião com os restantes Encarregados de Educação e a Sra. Educadora. Nesta sequência, a Sra. Subdiretora do Agrupamento de Escolas dirigiu-se ao JI de Santo Isidoro para me pressionar a aceitar e calar, fazendo crer de que quem estava mal era eu e, sem sentido ou justificação, foi inclusivamente chamada a Guarda Nacional Republicana (GNR), como forma de intimidação”.

Depois disto e a ser verdade tudo o que foi descrito nesta queixa passamos à sua análise:

  • choca-me a atitude da educadora, da escola, do agrupamento ao lidar com esta situação;
  • choca-me que a educadora tenha sido pouco profissional e tenha ainda conseguido agravar a situação afirmando “não cantamos a música porque o Pai da Nicole não deixa“;
  • choca-me não se ter pensado em como a criança se sentiu quando colocada de parte não só pelas outras crianças como pela educadora a quem também cabe o papel de cuidar, proteger e transmitir segurança;
  • choca-me que a educadora se tenha sentido a dona da razão e julgado o pai por ser de um clube que não o seu tendo posto em causa o bem-estar da criança e que não se tenha apercebido do mal que a sua postura estava a fazer, não só à criança em causa como às outras crianças que não estavam a ter o exemplo e os valores correctos a serem transmitidos;
  • choca-me que tendo em conta os problemas que a educação enfrenta (que os nossos jovens sejam cada vez mais problemáticos, que não mostrem respeito pela instituição de ensino que frequentam e pelos profissionais de educação que os acompanham ao longo de todo o seu percurso escolar) as pessoas envolvidas e particularmente esta educadora não tenham tido o discernimento para reflectirem sobre o verdadeiro problema e causa desta queixa. Um comportamento e uma atitude como estes que foram tomados não contribuem em nada para formar crianças, jovens, futuros adultos com os devidos valores;
  • por fim, choca-me que este grave problema só se tenha manifestado devido à insignificância de um assunto que não merece perda de tempo como o futebol.

Após ver a extensão e gravidade do problema concluí o quanto somos rápidos a julgar por uma notícia superficial que claramente remete para uma ideia errada e como uma notícia de tal gravidade é banalizada e remetida a guerra de clubes, de quem é o melhor e ganha mais taças.

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2 thoughts on “Pai apresenta queixa contra professora que ensina canção com “viva o Benfica”

  1. Sandra Silva diz:

    Alguém já pensou na pressão que esta criança deve ter em casa, para em tão tenra idade já ser “simpatizante” de um clube de futebol? Temo que a liberdade de escolha, tão defendida pelo pai, seja só aplicada fora de casa. Sim porque, para este tipo de acontecimento ser noticia de telejornal o pai não deve ser um mero simpatizante de outro clube. Desde que o meu filho mais velho foi para a creche, que me lembro de ouvir esta versão. Eles acham piada à batata frita e à rima com o benfica, e note-se que sou simpatizante do sporting. Na minha modesta opinião, mãe de 2 crianças de 2 e 7 anos, porque não deixamos que os nossos filhos se defendam, como faziam os nossos pais? Desde que não tome proporções “graves”, e não vejo que tal possa acontecer num JI! Super protejemos os nossos filhos, tomamos decisões por eles, não os deixamos esfolar os joelhos,….deixem as crianças ser crianças especialmente nestas idades em que ainda há inocência.

    • Kidsground diz:

      Olá Sandra!
      O seu comentário faz todo o sentido. As crianças devem ser crianças e os adultos quer sejam pais, educadores ou professores devem deixar que sejam crianças. As crianças precisam aprender pelos seus próprios erros. Precisam saber defender-se. No entanto, devem fazê-lo quando se trata de outras crianças. Mas a ser verdadeiro o cerne da queixa, ou seja, a marginalização da criança por parte da educadora já o problema é outro. A canção não vai moldar a personalidade da criança, não vai dizer que tipo de adulto se vai tornar, agora uma má atitude levada a cabo pela educadora poderá pôr em causa o modo como irá encarar futuramente a sua ida à escola.
      Obrigada pelo seu comentário!

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